Um Lobo no Rochedo

Gibraltar

Gibraltar, 10 de julho de 2011

Exausta, apoderou-se do meu corpo uma saborosa languidez, própria de quem acabara de comungar com os deuses. Sentada no alto do rochedo, ao abrigo da iluminação do miradouro, descanso e tento penetrar na escuridão do Mediterrâneo. Imagino-o luxuriante, de cor azul turquesa e que, nas suas águas sempre calmas e mornas, dançam pequenas embarcações de velas brancas, sob a luz dourada do Sol. Na base da rocha, a cidade iluminada, parecia um presépio bruxuleante. À minha memória aflora o Báltico. Frio, agreste e misterioso no seu azul profundo, salpicado de pequenas ilhas ao longo da costa. Para mim, agora, o mar é apenas uma enorme vastidão negra. Nunca terei memória da verdadeira cor do Mediterrâneo.

Da vegetação da encosta Leste espreita um macaco que, assustado e nevoso, foge rapidamente quando me vê. Não consigo deixar de sorrir. O pobre animal não esperava encontrar, nas suas escapadelas noturnas, um predador tão grande e voraz. Também eu sinto o perigo latente. Senti-o duas vezes ao longo do dia. E agora está perto… aproxima-se com cuidado, mas ainda não consigo identificá-lo. Estou em guarda, com os meus sentidos todos alerta. Identifiquei-o. Dentro de breves minutos, terei à minha frente um Lupino – lobisomem para os mortais.

Instintivamente salto para uma rocha. Lá em cima tenho uma visão perfeita, de tudo o que se passa num raio de dez metros. Quando olho para baixo, um grande lobo cinzento fita-me atenamente. Abriu a boca, para que eu pudesse ver os seus poderosos dentes e aperceber-me da força das suas mandíbulas. Eu mostro-lhe os caninos e desapareço por milésimos de segundo, para ele saber que não está perante uma presa fácil. Entretanto, vejo que, os seus olhos cor de mel, me sorriem com meiguice. Rapidamente estou à sua frente.

– Simon… Podias ter avisado que vinhas, grande animal.

O enorme lobo ergueu-se dando lugar a um homem jovem, forte e de rosto simpático. Abraçamo-nos com ternura.

– Já tinha saudades de apertar o teu corpo belo e frio, querida Lov. – Disse o Lupino, no seu estúpido humor inglês. – Frio?… Hummm… estiveste a caçar… estás quente e apetecível. – e, galante, pegou delicadamente na minha mão e beijou-a. – Uma caça especial, presumo…

– Chegaste na hora certa, querido Simon. Tenho tantas coisas para falar contigo, tantas teorias enroladas na minha cabeça! Obrigada pelas informações que me enviaste. Ahh…. olha para ti… não estás socialmente apresentável, para um passeio nas ruas da cidade. – Disse eu, olhando para o seu corpo nu.

– Tenho as minhas roupas a uns vinte metros daqui. Volto já. – E desapareceu na escuridão.

Simon era um amigo de longa data. Conheci-o no Egito, há uns longos trezentos anos, em circunstâncias novas, exitantes e cheias de perigo para ambos. As guerras entre Vampiros e Lupinos já tinham cessado, mas, tal como hoje, preferimos não conviver uns com os outros. É uma aversão genética, se é que isso existe, por isso, os confrontos singulares não são incomuns. Éramos quatro, naquele tempo. Eu e Sergei, o meu amado Mestre, amante e companheiro, Simon e a doce Catherine, sua companheira.

Eu andava obcecada com a origem dos vampiros e lia todas os livros que me pusessem a par da criação do mundo. Ouvia todas as histórias que os Anciãos contavam. Sempre que era possível ouvia as histórias dos humanos, também. Quis então conhecer a Mesopotâmia e o Egito e Sergei levou-me lá. Andávamos a explorar uma grande pirâmide quando, subitamente, constatamos que não estávamos sós. Dois jovens lobos seguiam-nos, a dada altura, pensamos que fossem mais. Nós não queríamos lutar e tentamos afastar-nos. Mas, ao cabo de algumas voltas, naquele labirinto de corredores, que pareciam ir dar sempre à mesma sala, percebemos que os Lupinos também não queriam lutar. Talvez quisessem companhia, ou, o mais provável, a nossa ajuda para sair dali. Esperámos. Eles surgiram devagar, e, calmamente, como quem entrega as armas, mostraram-se. Percebemos que, também eles eram jovens, pois a sua transformação foi lenta e deixou-os cansados. Então compreendemos. A presença ameaçadora estava ali, mas não vinha dos Lupinos.

Eles saltaram para o nosso lado e, em menos de um segundo, estávamos os quatro prontos para lutar, com quem quer que aparecesse. A pouco e pouco começamos a distinguir algumas formas claras, uns seres estranhos para nós, poderiam ter a nossa aparência se quisessem, ou ser um simples farrapo de denso nevoeiro. A a matéria de que eram feitos era tão fina e quase transparente. Eram nove. Se quisessem, soubessem ou pudessem lutar, não sairíamos dali vivos. “Saiam daqui. Vão por aquele corredor, sempre em frente e encontrarão a saída.” Disse um deles. “E não voltem”, disse outro. Nós corremos pelo corredor, que eles tinham indicado e, atrás de nós, pudemos ouvir um coro de risos escarninhos. Encontrámos a saída ao fim de alguns minutos. Cá fora, tudo parecia calmo e nenhuma presença se tornava notada. Então apresentámo-nos. Sergei estava relutante a ter como companhia dois Lupinos, mas eu e Catherine adoramos a ideia. Ainda com O Homem muito latente em nós, tínhamos milhares de coisas para falar. Mais tarde voltamos os quatro à pirâmide. Catherine e eu tínhamos muita curiosidade, queríamos conhecer aquelas criaturas de matéria tão esparsa e, para isso, o vestido que ela tinha deixado para trás, era uma excelente desculpa.

– Aqui estou eu, pronto para um longo passeio. – Disse Simon, surgindo de trás de uma pedra e arrancando-me aos meus pensamentos.

– Longo, longo… – ri-me eu.

– Gibraltar é lindo!

– Nunca percebi, porque têm vocês tanto orgulho nesta rocha superlotada de pessoas.

– Minha querida Lov, estás a pisar terreno britânico, mais respeitinho… – sorriu. – Mas, em que estiveste a pensar, enquanto eu me vestia?

– Pensava no Egito e quando nos conhecemos. Recordava como conhecemos os Icarumis…

– Ah, sim… aprendemos muito com eles. Bella ainda vivia há cerca de cinquenta anos, mas nada sei dela desde então.

– Bella ainda vive…

– Não a teríamos conhecido se não fosse a Cathy… confesso que nunca percebi porque insistiu tanto em recuperar aquele vestido. Na altura, poderia jurar que ela nem gostava muito dele…

– Hummm…

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  1. #1 by Antonio Carlos Muniz Macedo on 14 de Junho de 2012 - 13:02

    Cara Letitia
    Confesso-me seguidor atento e constante de suas belas narrativas, entendo da minha maneira e decodifico os simbolismos empregados, e eles me agradam sobremaneira, diria num arroubo, que é uma das melhores leituras que faço dos blogs ultimamente, quiçá desde sempre.
    Abraços

    • #2 by letitiamorgan on 15 de Junho de 2012 - 8:12

      Olá António, bom dia!

      Muito obrigada. Eu fico muito sensibilizada pela sua apreciação e incentivo.

      Abraços!

  2. #3 by Ebrael Shaddai on 14 de Junho de 2012 - 19:48

    Vou querer saber que seres brancos eram aqueles…e sim, Gibraltar é lindo sim, só a vi por fotos, mas desejável mesmo de se morar lá!

    • #4 by letitiamorgan on 15 de Junho de 2012 - 8:19

      Pois Ebrael, talvez desistisses de querer morar lá ao fim de meio dia… ou talvez não, pois aquele minúsculo território vivem cerca de 4.500 pessoas num quilómetro quadrado… só de pensar nisso sinto-me afogada em gente! 😀

      • #5 by Ebrael Shaddai on 15 de Junho de 2012 - 19:27

        Pr’uma vampirista, “afogar-se” não é um verbo tão estranho, é? Afogar-se em sangue, lágrimas, remorsos…afogar-se em gente seria uma delícia, não ´?

        Gosto de gente, contato, só não gosto de sujeira nem drogas… 😉

  3. #6 by Ivani Medina on 14 de Junho de 2012 - 22:41

    Letitia
    Tua narrativa me prende, mas o argumento me larga.

    • #7 by letitiamorgan on 15 de Junho de 2012 - 8:27

      Ivani,
      Muito obrigada por ter lido e por deixar aqui o seu parecer. Ele é muito importante.

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