Ensaio sobre as Máscaras

Deus cria o Sol e da Lua, por Michelangelo, Capela Sistina, 1508-1512

As máscaras somos nós. Eu tenho uma para cada ocasião. Normalmente não uso mascarilhas, essas destinam-se a esconder o meu rosto, a minha identidade física. A não ser que o trabalho as exija, nunca uso.

Mas uso correntemente máscaras faciais e gestos aparentemente espontâneos, destinados a esconder os meus verdadeiros sentimentos. Um sorriso socialmente simpático para um colega de trabalho simpático – na minha verdadeira opinião, um sacana sem escrúpulos, que derruba e pisa tudo e todos, para um dia ocupar a cadeira do chefe. Um bom dia cordial à empregada que me serve o café pela manhã, pois ela não merece a minha má disposição matinal. Um semblante sério e profissional para o chefe, quando na realidade me apetece rir às gargalhadas, das suas tentativas veladas para me “engatar”. Um abraço alegre à minha mãe, para não a preocupar com a minhas desventuras amorosas e lamurias profissionais. Enfim, durante um dia, posso usar dez ou vinte máscaras, sem me sentir minimamente culpada por isso. Poderão dizer que isso é mentir descaradamente, se calhar é, mas isso não me aflige.

Também me são indiferentes, as máscaras que os outros usam. Vivemos em sociedade e a grande maioria das pessoas que a compõem, preferem viver em paz e esta é a maneira mais eficaz de fazê-lo. Igualmente me é indiferente, se me deparo com pessoas sem máscara. O meu respeito por elas é igual ao respeito, que nutro pelas pessoas socialmente corretas. Desde que, tanto umas como as outras, sejam dignas dele. – Isto, obviamente, requer uma análise muito pessoal.

Mas há uma coisa que eu não suporto: é que as pessoas usem mascarilhas ou máscaras com o único intuito de manipularem. Muito menos para moralizarem. Até porque eu entendo a “moral” como algo pessoal, não admito intrusões. Só entra quem for convidado.

Normalmente, os moralistas, mascaram-se de pessoas muito retas e integras e alguns até vão à missa todos os domingos. Sabem tudo sobre a moral, bons costumes e ensinamentos divinos. Na ponta da língua, têm sempre pronta uma citação grandiosa ou algum versículo bíblico, atestando assim o seu rigoroso caminho sem desvios. Então, do alto da sua moralidade, acreditam que são juízes e arrogam-se a julgar os seus semelhantes. Julgam com crueldade e agem com estudada hipocrisia, mas com certeza, os deuses permitem, lá num capítulo qualquer de alguma escritura sagrada. Não têm dúvidas sobre coisa nenhuma, sabem sempre qual o comportamento que os outros devem adotar, perante determinada circunstância, e têm sempre um espírito santo grátis para curar qualquer tipo de mal da alma – entenda-se mal da alma como vulgares angústias do dia-a-dia; desamores ou simples arrufos, problemas no emprego ou simples deceções profissionais, preocupações maiores ou menores com os filhos.

Aqueles mascarados, dos diversos deuses que por aí abundam, os moralistas, que acreditam que são especiais, descobriram um veículo perfeito para marcarem a sua posição e despejarem a sua sabedoria encadernada: a internet. O pior é que não se limitam a escrever, ou reproduzir, cascatas de textos e poemas sobre o comportamento, o amor e a felicidade interior, nos seus próprios blogs, arrogam-se a usar o espaço das outras pessoas (murais para pequenos recados nas redes sociais, espaço para comentar artigos nos sites e blogs) para fazer a sua propaganda moralista e mais, os e-mails que são disponibilizados para contacto com leitores e pessoas que possam querer discutir algum assunto de interesse comum.

Então, estes moralistas virtuais, muito mais agressivos e ignorantes que os reais, escudados por perfis que nem sempre correspondem ao sujeito, nunca falam por si mesmos, mas em nome de determinado deus. Assim, escondidos nas capas de seda das entidades divinas, sem questionarem nada, são esquizofrénicos e felizes à volta do seu umbigo. Acreditam que deus, não só permite, como exige, que eles usem qualquer tipo de máscara, para divulgarem a sua sabedoria. De notar que, não me incomodam nada as pessoas que acreditem em deus, em duendes, em deusas, no monstro das bolachas ou no pai natal. Mas que usem essas personagens do folclore internacional, para se permitirem mascarar de pessoas honestas, a fim de intimidar e manipular, isso não.

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  1. #1 by Ivani Medina on 15 de Junho de 2012 - 11:47

    Taí, Letitia, adorei. O poder das tuas palavras são como a quelas gotas geladas de chuva que escapam entre a gola e o pescoço e estremecem o corpo aquecido pelo agasalho.

    • #2 by letitiamorgan on 16 de Junho de 2012 - 11:49

      Olá Ivani! O nosso comportamento visto despido de qualquer paixão (ou pelo menor número possível delas) é, na verdade, frio e desprovido de culpa.

  2. #3 by Antonio Carlos Muniz Macedo on 15 de Junho de 2012 - 13:26

    Jung revisitado, outra faceta de suas narrativas repletas de simbolismos. Excelente !
    Abraços

    • #4 by letitiamorgan on 16 de Junho de 2012 - 11:50

      António, obrigada pela sua presença e comentário! 🙂

  3. #5 by Van on 15 de Junho de 2012 - 18:19

    Oi Letítia

    Isso não passa da arrogância e prepotência humanas, é usar um deus que julgam poderoso, para dele se apoderarem e atribuírem-se poder sobre os outros que julgam não “possuírem” tal deus.

    Beijos

    • #6 by letitiamorgan on 16 de Junho de 2012 - 11:57

      Olá Van, as pessoas quando acreditam que determinada situação é verdadeira e sem lacunas, têm muita dificuldade em alargar a sua visão, por isso acham-se no direito de julgar, muitas vezes de forma agressiva, os seus semelhantes.
      Beijos!

  4. #7 by José Sousa on 16 de Junho de 2012 - 14:41

    Olá Letitia, boa tarde. Importante texto sobre a intolerância à ambiguidade, pelo menos foi assim que o li. Manifesto-lhe, também, alguma perplexidade pela incapacidade de grande parte de nós em compreender algo muito simples: a verdade estará eventualmente contida no comportamento guloso e atávico do monstro das bolachas.

    • #8 by letitiamorgan on 16 de Junho de 2012 - 15:14

      Olá, José! Eu própria confesso, que sou bastante intolerante a certo tipo de comportamentos, como é o caso de tentarem por todos os meios moralizar-me (no sentido social, de filosofia de vida).

      Visto a frio, essas pessoas acreditam que estão a fazer o “bem”, que é seu dever enquanto pessoas de “bem”. O que eu não compreendo é que elas não dêem espaço aos outros para pensarem e agirem de maneira diferente, que se escudem em certas entidades (contra as quais eu nada tenho) para me rotularem. A mim ou a qualquer outra pessoa. Acho isso de uma enorme prepotência e arrogância, muito mais quando usam espaços diferenciados (no caso dos moralistas virtuais), como é o caso dos e-mails de contacto e dos “recados” nas diversas redes sociais.

      Mas isso de ser humano tem muito de atávico, mesmo! 🙂

  5. #9 by Vera Alvarenga on 16 de Junho de 2012 - 19:29

    Gostei demais, Letítia! Já falei sobre este assunto,um tanto indignada e mais do que cabe a mim mesma e de como sei que posso ser muitas de conformidade com diferentes ocasiões, porque sei que assim é e, se não fosse não poderíamos conviver! rs…Chamam isto, sim, de máscaras. Quem haveria de aguentar conviver com os que se dizem tão honestos e francos e despejam sobre tudo e todos, os seus humores conforme o que se lhes dá na telha, de momento? Quem é assim tão confiante em seus próprios julgamentos que os tenha como justos e adequados, a ponto de não “mudar de idéia”, e por consequência de “face”, conforme o passar do tempo ou o mudar das circunstâncias? Eu mudo. E sei pouco, e o que sei, muitas vezes esqueço e me vejo curiosa outra vez. Queria ser sempre sorridente e tranquila,mas vivo outros personagens também, que são tolos, bons, fracos (muitas vezes) e fortes. Haverá, com certeza, uma cara para cada um.
    Adoro máscaras – trabalhar com elas foi uma paixão, fiz algumas exposições em que apareciam como mascarilhas(se bem entendi você, e acho que sim) e também outras que contavam dos sentimentos que escondemos atrás de nossos semblantes… Aliás, por falar em máscaras… hehehe, ultimamente não compreendo muito bem como, ao deparar com meu rosto refletido num espelho quando menos esperava, me surpreendo e assusto ao ver ali uma face/máscara tão séria, uma velha senhora de boca fina que mais seria de uma mulher brava, a cobrir a mim mesma, que naquele mesmo momento por acaso posso estar lembrando de algo bom e terno, ou de um momento apaixonado… Como veio me parar grudado no rosto esta que nem sempre traduz meus sentimentos? Minha mãe já tinha me falado sobre isto. E você, quando ficar velha talvez se lembre disto. Quando somos jovens não entendemos. Então, na prática, mais um elemento aqui a discutirmos ! – o TEMPO, nem falo só de emoções vividas, mas as marcas do tempo, a pele flácida que nos cai sobre os olhos e modificam o olhar, também são uma máscara que nos vem como uma maquiagem e nem sempre traduz sentimentos! Mas este tempo e estas rugas são nossos também, acabam fazendo parte. Nem sempre uma velha boa fica com uma boa e terna cara! Não só as expressões de uma vida toda marcam o rosto, mas também a qualidade da pele também o definem…kkk…Surpresa!! Já vi um velho com um olhar tranquilo e lânguido, que disse que matou gente quando precisou e tá acabado! De qualquer forma, há gente que vive seus personagens o mais honestamente possível reconhecendo limitações e há os que teimam em usar a mesma máscara, como se pudessem interpretar perfeitamente um único personagem, e esta pretensa perfeição, com o tempo gruda na cara trazendo cheiro de mofo, dando à tudo uma aparência de permanência e igualdade que nega o movimento da vida …e não falo daquela que o tempo traz junto com as rugas ( mas que ainda é o resultado do que vivemos). Falo da máscara que tem apenas 2 faces intercambiáveis – a do sorriso benevolente e nariz arrebitado da pretensão que se transforma imediatamente no olhar cruel que acusa sem piedade o outro que não segue o que a primeira sugeriu.
    Ui! percebi neste exato momento que, ao falar neste assunto fico tão indignada que..ui! quase me gruda a tal, no rosto! ..rs….
    Abração e bom final de semana.
    Vera

    • #10 by letitiamorgan on 17 de Junho de 2012 - 11:19

      Vera, perante a sua exposição só me resta dizer: muito obrigada!

      Quanto ao tempo e reflexos, penso que essa sensação não tem idade. Imagine que é imortal num mundo de mortais (rsrsrs), já pensou como deveria ser angustiante olhar para o espelho e não ver devolvida a imagem do tempo?

      Abraços

      • #11 by Vera Alvarenga on 17 de Junho de 2012 - 16:22

        Certamente seria angustiante sim, ou pelo menos, não natural…rs.. Mas não me importo, é só uma constatação.Quis lembrar aqui que, as marcas do tempo no rosto também são uma máscara que nos tira a transparência, tem a ver com nossa história mas também com coisas puramente físicas.Lembro uma vez que perguntei a minha mãe se estava brava e ela, surpresa saiu de seus devaneios e me disse que,ao contrário,estava a lembrar-se de coisas boas.Assim, somos todos sujeitos a elas(máscaras) como bem diz você,naturalmente, embora alguns abusem do uso, como meio de conseguir seus objetivos. Falsos moralistas e manipuladores em altos graus o fazem com facilidade. Acho este assunto- máscaras- fascinante! Beijos.

  6. #12 by Beth Muniz on 1 de Julho de 2012 - 20:50

    Homeopaticamente, compartilhado e espalhado.
    Beijo querida.

    • #13 by letitiamorgan on 4 de Julho de 2012 - 19:06

      Olá Beth, muito obrigada pela sua simpatia e colaboração. Eu peço desculpa de não a visitar com mais assiduidade, mas não tem sido possível.
      Um grande beijinho!

  7. #14 by Carlos Araújo on 3 de Julho de 2012 - 23:36

    Inicialmente, gostei e concordei com as “máscara”, entretanto analisando o seu excelente texto, percebi que após uma boa introduçäo, você optou por uma por completar seu texto com uma “linha troíana” aonde através da simbologia das mascarás, você depósita dúvidas sobre toda a igreja católica. Fico alegre por ver que você ser inteligente e ter um bom conhecimento para escrever este artigo, porém muito você decepciona por näo entender a diferença entre RELIGIÄO E RELIGIOSIDADE. Creio que você deve acreditar que a Religiäo dos Irmäos é diferente em sua caminhada para chegar a ser a primeira do Mundo. Todos os Impérios RELIGIOSOS, tiveram e tem sua fogueiras, seus martires, suas fortunas (feita em cima da miséria de seus devotos) para chegarem a Topo da Pirâmide, porém depois de alguns anos seräo substituídas por outra religiäo do momento. O ser Humano é transcedente e por isso nunca existirá uma ÚNICA RELIGIÄO. A DO MOMENTO É A EVANGÉLICA, PORÉM SEM UNIDADE, é um amontado de dispersos, por isso é necessário ser religiosa, pois näo dependerá de uma religiäo como guia para nossa vida. Tirando a sua intençäo de denegrir a imagem da Igreja CATÓLICA, seu texto seria de excelente proveito.

    Carlos Araújo (Católico)

    • #15 by letitiamorgan on 4 de Julho de 2012 - 19:50

      Olá Carlos, boa noite!

      Primeiro quero agradecer-lhe a sua excelente exposição neste artigo, que, de algum modo, eu sabia que poderia dar aso a polémicas.

      De seguida, gostaria de dizer-lhe que não se trata de uma crítica específica aos católicos, ou outros cristãos, ou outras comunidades religiosas quaisquer. Quando eu refiro um grupo de crentes, são quaisquer, embora, como é natural, vivendo eu num país onde a esmagadora maioria dos religiosos são católicos, isso possa de algum modo transparecer.

      O que eu penso é que as religiões, de uma maneira geral, são um mal. São um enorme mal social. Não porque os seus dogmas sejam maus, mas porque as diversas igrejas, enquanto empresas perfeitamente enquadradas no nosso sistema de mercado, usam e abusam dos crentes. Os crentes por sua vez, longe de serem melhores pessoas e cidadãos do que os não crentes, escondem-se atrás de máscaras de beatitude e ousam julgar os seus semelhantes à luz da moda de cada igreja.

      Veja-se por exemplo o caso do aborto. Os religiosos expõem as suas opiniões, o que eu acho muito bem, pois vivemos em democracia, mas não se abstêm de julgar como assassinos quem o faz. À luz de que deus é que este comportamento faz sentido? Ora todos sabemos que tanto religiosos como não religiosos fazem abortos. Seria de uma enorme hipocrisia pensar de outra forma. Só que os religiosos escondem o facto, rezam à nossa senhora de Fátima e ficam perdoados. Os não religiosos não têm ninguém que os perdoe. Têm apenas a sua consciência a atormentá-los até o facto se tornar apenas uma memória. É por estas e por outras (muitas outros comportamentos idênticos) que eu acho que ninguém tem o direito de moralizar ninguém. Todos somos seres humanos, todos cometemos erros.

      E por favor não penso que eu tentei denegrir a imagem de qualquer igreja. Eu penso, isso sim, como disse ali atrás, que as religiões enquanto empresas organizadas não deveriam existir, tão simplesmente porque considero que são um mal social. Não estou a fazer a apologia da não espiritualidade individual, pois considero que cada ser humano tem as suas próprias necessidades espirituais.

      Abraços e mais uma vez, muito obrigada pelo seu comentário!

  8. #16 by Ebrael Shaddai on 8 de Julho de 2012 - 16:53

    Todo julgamento limita, e o que pode ser mais diferente do Eterno que a limitação. Na Kabbalah, o que dizemos ser “Deus” é chamado de “Ain”, palavra que se traduz, nesse caso, por “Não-Existente”, pois tudo que existe tem limites, dimensões, começo e fim.

    Como diria Eliphas Levi: “Definir (limitar) Deus é destronar Deus”…e por o Demônio no controle dessa zorra toda!

    • #17 by letitiamorgan on 13 de Julho de 2012 - 21:50

      Olá Erael,

      Também concordo contigo.

      Muito obrigada pela tua opinião. 🙂

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