Deusilusões, ou o Primeiro Mandamento

Monte Sinai, Egito

Ofereceram-me uma bíblia. São três livros velhos, com uma encadernação vermelha e páginas amarelecidas pelo tempo. Nas capas, de cartão rígido, podem ler-se num amarelo esbatido – que em tempos deve ter sido da cor do ouro -, Bíblia Sagrada, Antigo Testamento (dois livros) e Bíblia Sagrada, Novo Testamento. Foi comprada na Feira da Ladra, por um amigo que gosta de velharias.

Os livros cheiram a papel empoeirado, e, cada vez que os abro, espirro copiosamente, numa saúde empolgada aos milhares de ácaros, que vivem naquelas páginas. Confinados ao espaço rígido das folhas, nada mais podem fazer, do que rebolar-se entre as letras mais curvilíneas, num verdadeiro bacanal de cultura. Leem e releem as mesmas histórias todos os dias, sabem o significado de cada palavra e de todas as alegorias. Os ácaros da minha bíblia sabem a bíblia de cor. São ácaros com memória de elefante, embora um elefante, jamais consiga perceber, o significado simples daquele calhamaço. Eles entendem muito mais sobre deus, do que eu alguma vez entenderei.

Dentro do primeiro livro encontrei um brinde: um santinho. Em tempos, deve ter tido alguma serventia espiritual ou ritualística, pois no verso ostenta uma oração. Agora tem uma função prática e metódica. É o meu marcador.

Já li 148 páginas da minha bíblia. Cheguei, finalmente, ao Êxodo, Capítulo XX. Estava ansiosa por chegar aqui. Os mandamentos da lei de deus sempre me fascinaram. Digo, com orgulho, que só fiz batota nas descendências dos diversos patriarcas. Faltaram-me a paciência de Job e a persistência de Moisés. Mas lá voltarei se for necessário.

Adoro o palavrear da bíblia.

Primeiro Mandamento: “Eu sou o senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima do céu, e do que há em baixo na terra, nem do que há nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto; eu sou o Senhor teu Deus forte e zeloso, que vinga a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam; e que usa de misericórdia até mil com aqueles que me amam e guardam os meus preceitos.”

Com a ajuda do tio Google, vagueei, fascinada, pela internet, entrando em sites, blogs e foruns de discussão, cristãos, católicos e judaicos. Então verifiquei o seguinte: os judeus cumprem, pelo menos na internet, o primeiro mandamento da lei de deus. Não usam imagens, que possam ser suscetíveis de confusão entre uma simples recordação e a adoração de falsos deuses. Estão a cumprir a lei do todo poderoso. Já os cristãos e os católicos…

Valha-me o santinho marcador da minha bíblia… até assusta! Esqueceram-se completamente do Primeiro Mandamento. Para além das páginas demorarem uma eternidade a carregar, o bater das asas, das hordas de anjos e arcanjos é ensurdecedor. Jesus, sempre envolto por um halo de luz e com aquele aspeto de borracho nórdico, emerge de todos os cantos, certamente, para gáudio das viúvas desamparadas, solteironas sequiosas e teenagers inconscientes. Depois há ainda a considerar os exércitos de santos e santas, grupos de rapariguinhas com asinhas e afins. Um frenesim de adoração a Cristo deus, ou deus Cristo, mais o espírito santo – em forma de gota de orvalho, pomba estilizada, ou luz de flash – que também é adorado, embora eu ainda não lhe tenha descoberto a forma. Pensando bem, segundo os diversos folclores, os espíritos não têm forma. Divagações à parte, vi-me envolvida por uma festança de alheamento ao Primeiro Mandamento da Lei de Deus. Até que foi divertido!

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  1. #1 by José Sousa on 18 de Junho de 2012 - 9:33

    Letitia, bom dia. Muitos parabéns, adorei este texto. Confesso que, apesar da imensa
    seriedade das questões que levanta, ouve alturas em que não consegui evitar a
    gargalhada.. Mea culpa. Digo-lhe o seguinte: depois de ler isto não me será possível
    passar por um pombo numa praça escandinava ou não, sem um brilho estranho nos
    olhos e um sorriso enigmático nos lábios. Muito obrigado por isso. Um abraço e boa
    semana.

    • #2 by letitiamorgan on 18 de Junho de 2012 - 22:48

      José, boa noite. Muito obrigada pelas suas palavras. É verdade, as pessoas consideram o assunto das religiões em geral, delicado, pois trata-se de filosofias muito particulares. Pessoalmente tenho muito cuidado para não ferir suscetibilidades, tanto nas crenças religiosas como nas preferências clubisticas. Jamais me empolgo muito perante uma vitória do Benfica, junto de um portista, por exemplo! 🙂

      A escrever funciono de forma um pouco diferente…

      Não pude deixar de rir-me da analogia dos pombos… acabei de lembrar-me que eles gostam particularmente do meu carro, tenho de investigar melhor o assunto… 😀

      Abraço e boa semana.

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