O Caixão

O caixão

Lugo, 6 de outubro de 2011

Encontrei-me com Simon em Madrid. Depois de termos, literalmente, fugido de Gibraltar, separámo-nos. Eu fui a Paris pesquisar sobre alguns assuntos que tinha pendentes e ele foi a San Sebastian, para ver alguns amigos. E agora estamos em Madrid, juntos outra vez, rumo a Lugo.

Ambos recebemos, na passada semana, uma mensagem de Javier Calderon, convidando-nos para a sua casa, a fim de nos consultar sobre um caso que tem em mãos. Fiquei feliz como uma criança. Javier é um mortal que conheci na década de oitenta do século passado e com quem tive o prazer de trabalhar em muitos casos. Um homem justo por natureza e polícia por vocação e amor. Apesar de ter ganho a reforma recentemente, não consegue desligar-se da sua grande paixão: trabalhar em prol da verdade, doa ela a quem doer. Por isso criou uma empresa de investigação, onde trabalha com mais três pessoas. Estou ansiosa. Para Javier precisar da nossa ajuda, a investigação que se propõe fazer é de certeza muito complicada e sigilosa.

Soube que a polícia já ligou os crimes de Madrid aos de Gibraltar. Está confusa com o último crime. Não vai ser fácil desligá-lo do mesmo assassino por causa do modus operandi. Cometi um erro, bem sei, mas fico completamente cega quando presencio a violência gratuita. Perco toda a racionalidade. Pouco me importa se os mortais brigam e se matem por causas absurdas, como mulheres, homens ou negócios, ou se se chacinam em guerras e guerrilhas por causa de drogas ou petróleo. Isso é problema deles. Faz parte da sua natureza humana exibir a força e poder em disputas vãs. Mas não suporto ver um mortal agredir alguém, que pela sua fraqueza física ou pouca idade, não pode, ou não sabe defender-se. Agora não vale a pena lamentar, apenas seguir em frente.

Tomamos a A6 e viajamos toda a tarde, de modo a chegarmos ao destino ao pôr do sol. Simon conduziu enquanto eu dormi, ou melhor, dormitei hermeticamente fechada na minha mala-cama, que estendi no enorme porta-bagagens da station. Estas malas são a versão moderna dos caixões ou arcas onde os vampiros costumam dormir. Muito práticas, elas são articuladas, de modo que, quando se dobram, parecem uma inocente mala de viagem. As lendas dos mortais relacionam os caixões dos vampiros com a morte, histórias horríveis de mortos-vivos, cemitérios e mansões abandonadas. Estes cenários tétricos têm a sua validade, pois durante centenas e centenas de anos, era nos cemitérios e nos lugares ermos que nos sentíamos mais seguros.

Os mortais são criaturas frágeis, dadas a fantasias e paixões dolorosas, daí que fujam das trevas e todos os lugares que lhes possam lembrar a morte (auge da sua incompreensão e medo). Mas na realidade, para os vampiros, os cemitérios, grutas e casas isoladas, apenas serviram (e ainda servem) para nos manter em segurança. E, claro, os célebres caixões são-nos indispensáveis. Não por estarem relacionados com algum rito satânico, ou porque gostamos de uma decoração extravagante, mas simplesmente, porque podem ser uma cama confortável onde não entra luz. Ficamos ainda mais descansados quando podemos dormir dentro de um, num jazigo escuro, nas caves duma eremita ou num quarto interior duma mansão em ruínas.

Eu já há muitos anos que não tenho caixão. Desde que descobri o artesão que faz as malas-camas. Quando a alvorada desponta no horizonte, estendo-a em cima da minha cama, fecho-a por dentro e durmo como um anjo.

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