É Outono na Galiza

Lugo à noite

Lugo, 25 de outubro de 2011

É outono na Galiza. O calor anormal já voou para sul e o frio abraçou região com asas cinzentas de tempestade. Como devem ser verdejantes os seus prados! De olhos fechados, inspiro o ar frio e imagino-os viçosos brilhando à luz envergonhada da madrugada.

Da varanda da sala de estar, avistei o pátio da velha casa de granito. As paredes exteriores foram recentemente restauradas e o interior completamente remodelado e dotado do conforto necessário, às necessidades de Javier Calderon. Uma das velhas lojas, que há mais de oitenta anos, serviam de abrigo aos animais da quinta, foi transformada em duas divisões. Uma ampla sala onde Javier trabalha com os seus sócios e um pequeno, mas agradável, escritório para receber os clientes. As outras duas são agora uma adega e uma garagem. No andar de cima fez a sua residência. É um lar aconchegante, que ele gosta de manter imaculadamente limpo e arrumado. Na grande cozinha pode petiscar-se qualquer coisa, pois ele faz questão de encontrar as mais variadas iguarias que fazem as delícias gustativas dos mortais. Até os seus amigos não mortais, jamais passaram fome em sua casa. Gosto do outono. Gosto de sentir as noites crescem diariamente, num passo lento e cadente.

Entrei na sala, fechei a portada da varanda e depois a porta. Lá dentro o ambiente estava quente e confortável. Na lareira crepitava um enorme madeiro e diversos paus de azinho. Javier colocou um CD no leitor. Estaria tudo perfeito para uma longa noite de conversa amena, se não fossem os restantes convidados. Aguardávamos os sócios de Javier, que necessariamente tinham que conhecer-me, e ao Simon, já que iríamos trabalhar juntos. Eu acedi relutante. Não me agradava conhecer três humanos simultâneamente. Sabia que, se Javier tinha sugerido esta reunião era porque tinha total confiança nos seus iguais. Mas, mesmo assim, estava nervosa. A campainha tocou. Ali estavam os mortais Marion Burkett, Harry Ghost e Felipe Perez. Ainda teríamos que esperar por outra criatura: Jean-Luc Sansreproche, um querido matusalem – ser a quem os homens, nas suas lendas, chamam imortais -, cerca de uma hora. Até lá, tinha que conviver com aqueles estranhos. Fechei os olhos e concentrei-me na música que tocava lá ao fundo…

Anúncios

, , , , ,

  1. #1 by Ebrael Shaddai on 28 de Junho de 2012 - 12:48

    Há uma coisa que une mortais e imortais, em todos os tempos: o temor pelo que lhes é diverso em Natureza, número e grau (posição). Encontramos, então, as três variáveis a se espreitarem…
    Bjss!

    • #2 by letitiamorgan on 30 de Junho de 2012 - 18:36

      Olá Ebrael, super obrigada pelo teu comentário!
      Com certeza que tens razão, mas eu sou um tanto cética… não acredito em seres imortais! 😛
      O que referes aplica-se a qualquer ser: todos somos diferentes (mesmo dentro da mesma espécie); quando o número de determinada espécie aumenta ou diminui há desequilíbrio na natureza (vê o aumento desmesurado dos seres humanos e imagina a extinção de todas as aves, por exemplo); a posição relativa (seja social, particular ou mesmo física) de cada ser é diferente (até dentro da mesma espécie).
      Beijos.

  2. #3 by sanfran34 on 1 de Abril de 2013 - 20:32

    Bacana, Letitia.
    Parabéns pelo texto e aproveito para lhe cumprimentar pelo seu aniversário: Saúde e paz!!

    Sandra Franzoso

  1. Ver! | Blog | É Outono na Galiza

A sua opinião é importante. Deixe-a aqui!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: