O Início do Serão

Início do serão

Lugo, 26 de Outubro de 2011

Javier franqueou a porta aos seu amigos e os três entraram entre sorrisos e cumprimentos efusivos. Visivelmente nervosos, evitavam olhar para o fundo da sala, onde eu me encontrava enterrada num sofá e Simon, exibicionista, tinha adotado uma pose despreocupada, copiada de algum ator canastrão de meados do século XX. Se eu não estivesse tão contrariada, teria rido à gargalhada.

Sem especificar quem era quem, ou o quê, Javier encarregou-se das apresentações. Levantei-me, como mandam as regras da boa educação, e cumprimentei amavelmente, um por um. Simom fez o mesmo. Houve um momento de silêncio, quebrado pelo mais jovem dos dois homens: Felipe Perez.

– Já que o nosso querido Javo faz tanta questão de nos confundir com as vossas identidades, eu vou arriscar. Lov é o vampiro e Simon é o lobisomem.

– Eu diria que é ao contrário, pois Javo disse um vampiro e lembro-me bem que deu ênfase ao artigo. – Disse Marion olhando atentamente para Simon e depois para mim, tentando encontrar algum indicio para o seu argumento.

Harry, calado e ligeiramente carrancudo, olhava para o todo, sem se fixar em nenhum de nós dois. Era um homem interessante, muito interessante, um mortal capaz de despertar a minha curiosidade… e isso não era bom. Não gosto de casos amorosos com humanos. São dolorosos. Ah, com que então, Javier tinha feito um joguinho pouco claro para os seus amigos! Olhei para Simon e ambos decidimos entrar na brincadeira. Olhei para Felipe, sorri e perguntei:

– O que o faz pensar que sou eu o vampiro?

– Tem a pele muito branca, as mãos frias… – argumentou o jovem, tentando encontrar mais características, sem conseguir. Ainda pensei perguntar-lhe se queria ver os meus caninos, mas desisti, por considerar pouco simpático.

– O Simon também tem a pele clara e eu estou afastada da lareira. O que pensa Harry? – Perguntei subitamente, fazendo o interpelado dar um salto. Muito vermelho, como uma criança apanhada em falta, pigarreou duas vezes e disse:

– Ah, não sei. Nem sei se acredito em criaturas de contos de fadas. – Tentou sorrir – Conheço Javo há muitos anos e sei que ele conseguiu resolver alguns casos de forma miraculosa ou marginal, com a ajuda de certas criaturas… mas esta é a primeira vez que sou apresentado a duas delas. Imaginei que deveriam ter um aspeto extraordinário, mas afinal são dois jovens; um homem elegante e uma mulher de extrema beleza. – Calou-se por um momento, como se hesitasse em continuar. – Para ser franco, de lobisomens só sei que vi num filme, há já tantos anos, que me esqueci do nome e também dos protagonistas. De vampiros sei o que aprendi em “Entrevista com o vampiro” de Neil Jordan que, apesar do filme já ser antigo, vi recentemente. Mas acho que sim, os vampiros têm fama de ter o corpo frio e a pele muito branca, embora o que mais me preocupe seja a sua alimentação… – Sorriu, olhou-nos atentamente e pediu: – Marion dá-me a tua mão. – depois pressionou-a ligeiramente, sentindo a temperatura. – Agora a Lov… – levantou-se e estendeu-me a mão. Eu dei-lhe a minha e ele sentiu a temperatura. – Não me parece que a temperatura da mão de Lov seja menor que a da mão de Marion.- Declarou Harry, agora mais solto e natural.

Simon, que tinha estado calado, desencostou-se da lareira veio até às costas do sofá onde eu estava sentada, colocando as suas mãos, grandes e quentes, nos meus ombros. Olhou para Marion e falou:

– Javo é tortuoso, gosta de massacrar os seus amigos. – Entretanto, Javier, sem se importar minimamente com a observação de Simon, foi trocar o CD no leitor e buscar mais amendoins e figos secos. – A Marion tem estado a observar… quem é quem neste jogo, Marion?

– Pode chamar-me May, Simon… os dois – disse olhando para mim. – É como todos me chamam. Acho que o Simon é o vampiro e a Lov uma imortal. Penso que Javo nos enganou aos três! – Disse a última frase num tom de voz mais alto, para que Javier ouvisse. Este, saindo da cozinha, limitou-se a dar uma gargalhada. – Talvez o lobisomem seja a criatura que aguardamos.

– Eu já vou por ordem à mesa. É só avivar o lume… – Disse o nosso anfitrião, visivelmente feliz.

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