O Crucifixo

O Crucifixo

– Lov… outro dia dissestes que contarias a tua história! Por favor…

Marion é uma das melhores hackers que eu já vi trabalhar. Qualquer informação, por mais impossível que aparente ser, salta dos seus dedos, rápida e certeira, para o monitor do portátil, em carateres incompreensíveis, que, mais uma vez, ela descodifica tão facilmente, como eu bebo um golo de Vida. Para além de ter uma figura agradável e um rosto bonito, Marion é uma mulher de inteligência superior, por isso, não compreendo o seu espírito supersticioso, pois guarda na carteira uma cabeça de alho, e tem sempre, em qualquer bolso, um pequeno crucifixo de ouro.

-Contarei… mas a minha história é longa, muitos serões teremos que lhe dedicar!… E também vou querer ouvir as vossas…

– Eu adoraria, conta…

– Excelente ideia!

– Marion, mata-me uma curiosidade, porque é que, sempre que estás comigo, colocas uma cabeça de alho na carteira e no bolso do casaco, ou das calças, esse bonito crucifixo de ouro?

– Mas… como podes tu saber isso?!…

– Se calhar a Lov sempre pode atravessar paredes… transformar-se em ar…. – disse Javier dando uma gargalhada com gosto.

– É um truque Marion, aprende-se com os anos, pratica-se muito até se tornar perfeito. Ou quase perfeito. Vou mostrar-te.

Com a rapidez própria da minha espécie, saí do meu lugar e sussurrei ao ouvido de Marion “És supersticiosa.”, voltando de seguida à minha poltrona. Ninguém deu por nada, nem Simon que, quando viu o rosto assustado de Marion, me disse baixinho, “Nunca ninguém te igualará…”

– Entraste no meu pensamento…

– Não, minha querida, apenas me desloquei do meu assento ao teu, utilizando uma velocidade tal, que tu, ou qualquer dos presentes, não se apercebeu da minha ausência. Daí a ideia que os mortais têm sobre os vampiros poderem atravessar paredes, desaparecerem no ar, aparecerem no nevoeiro… Mas ainda não me respondeste…

– Não sei… é um tanto idiota, mas sinto-me mais segura. Na verdade não sinto um medo real de estar ao pé de ti, é um sentimento que não sei explicar… De certeza que podes pegar no crucifixo sem te queimares?

– Marion, deves sentir medo sim. O medo é uma excelente defesa e a grande maioria dos vampiros existentes são muito jovens, demasiado impulsivos e fascinados pela imortalidade, o que os torna excessivamente ferozes. Queres passar-me a cruz?

Marion passou-me o crucifixo para a mão, quase hesitante, como se temesse que eu fosse entrar em combustão quando lhe tocasse. Peguei na pequena cruz e apreciei-a, depois aceitei os alhos, cujo odor ativo me faz dores de cabeça.

– Sabem, as superstições dos mortais não perturbam os vampiros. Nem um bocadinho… Cada povo tem as suas, pois elas são invenções, normalmente associadas e exploradas por crenças e religiões. Tu usas um crucifixo de ouro, noutras regiões do mundo, os que crêem nessas palermices, garantem que a cruz tem de ser de madeira, ou de prata, ou celta, ou, se não se benzer o amuleto ele não funciona. Noutros sítios dá-se preferência à água benta, água pura de nascente, à saliva de crianças ou bebés, sangue de bêbado, absinto, o sal também resulta em muitos lugares, há ainda orações, salmos, os alhos, citações em latim, raminhos de arruda e mais um sem número de plantas. Já reparaste que o uso da cruz, como amuleto para afastar ou paralisar vampiros, é contraditório? Os cemitérios foram, e continuam a ser, os lugares mais procurados por nós, para passarmos o dia; ora como poderíamos sobreviver no meio de tantas cruzes, anjos, arcanjos, terra, tudo devidamente sacramentado e benzido, com a regularidade da morte? São tantas e tantas variações, que, se isso fosse verdade, os vampiros já se teriam extinguido naturalmente, pois em toda a parte há qualquer coisa que nos inibe, paralisa, afugenta, enfraquece e mata. Não precisas de amuletos para te protegeres de um vampiro, Marion, precisas apenas de não invadir o seu território e interferir na sua vida. E não penses nunca, que eu sou melhor do que qualquer vampiro, tal como eu não arrisco pensar, que tu é melhor mortal do que qualquer outro.

– Bolas, isso não é lá muito animador, como colega de trabalho e, espero, amiga, mesmo que dessa forma tão estranha para mim, vou pedir-te que me dês umas lições de proteção vampírica!… Então, vou pôr o crucifixo ao pescoço e deitar os alhos fora…

– Não… os alhos deixa na bancada da cozinha… que mania têm os jovens de não dar valor aos alimentos! – Exclamou Javo.

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  1. #1 by José Sousa on 14 de Julho de 2012 - 16:31

    Olá Letitia, boa tarde. Mas como é que agora me poderei defender dos seus jovens, impulsivos
    e intoxicados de imortalidade colegas? E a Letitia faz-me isto a mim, logo a mim, que passo a vida
    rodeado deles. Já nem a cruz ou o alho me valem. Só a desculpo porque sei que não fez por mal,
    nunca poderia saber que eu, secretamente, me defendia com estas armas. O seu texto está delicioso. Adorei quando nos desmontou a rapidez de execução. Um beijo e bom fim de semana.

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