Uma Linda Menina

Uma linda menina

Sou ainda menina, linda…
Uma linda menina.
De cabelo entrançado
Coração inocente,
Pés nus e saias arregaçadas…
Sou menina ainda.

Sou ainda menina, livre…
Uma linda menina.
Bramo uma espada pesada com orgulho
Ágil a manejar o machado,
Monto o mais rápido garanhão da quinta,
Ensaio os passos heróicos,
Das guerras sangrentas
Que levam à vitória as princesas,
Guerreiras de lendas antigas.
Sou menina ainda.

Sou ainda menina, pura…
Uma linda menina.
Escoltada por três irmãos
Aprendo a defender a terra,
Os animais e os servos.
Mas eles, meninos também,
Não souberam ensinar-me
A defender-me de mim mesma.
Sou menina ainda.
Somos meninos ainda.

Passei a minha infância entre Uppsala, e uma propriedade de minha mãe, situada a cerca de vinte quilómetros a norte. Naquele tempo era tudo tão diferente… O mundo era mais limpo, mais respirável, embora as cidades e as pessoas, vistas com o nosso olhar de agora, pudessem não parecer. As ruas da cidade fediam, com os excrementos dos cavalos e bois e no inverno eram invadidas por mantos de neve e lama. Nas janelas das casas cresciam flores de cores alegres, cujo aroma se misturava com os cheiros nauseabundos do trabalho e da labuta diária. Mesmo assim, o mundo era mais cristalino…

Os meus irmãos e eu passávamos o verão no campo, e aí, por mãos duras de servos competentes e amas autoritárias, aprendíamos toda a faina do trabalho rural. Desde amanhar a terra até fazer o queijo, tínhamos de dominar todas as técnicas, pois era máxima de minha mãe que, “quem não sabe fazer, não sabe mandar fazer”. A mim, por ser rapariga, ainda me estava destinada a aprendizagem de todas as tarefas de tradição feminina: fiar, tecer, governar a casa, ensinar as servas e organizar o trabalho dos servos.

Apesar do cristianismo já estar fortemente implantado, nos finais do séc. XV, e de minha mãe ser frequantadora habitual da igreja, muitas das tradições antigas eram mantidas na minha, e em muitas outras famílias. Uma delas era a detenção da terra; aquela propriedade um dia seria minha, ou, senão minha por direito legal, pois as leis vieram a ser alteradas desde o Séc. XIII, seria minha a responsabilidade de a manter funcional, e, viria a servir de dote quando chegasse a altura. Como “dona” da terra eu teria que defendê-la, por isso foram-me ensinadas algumas técnicas de defesa e ainda, a manejar com competência uma espada e um machado. Aprendi a ler, a escrever e todas as subtilezas da escrituração, que a administração de uma propriedade exige. Fizeram também parte da minha educação, a pintura, a música e o canto.

Tive a sorte de ter acesso a diversos livros e novas ideias, trazidos pelo meu irmão mais novo, da então jovem Universidade de Uppsala, onde estudou, os quais discutíamos e explorávamos, até onde a nossa imaginação e conhecimentos permitiam. Os mais velhos dos meus irmãos seguiram a carreira militar. Por ideal escolheram apoiar os patriotas que lutavam contra a União de Kalmar; mais tarde viriam a fazer parte da comitiva de Gustaf Vasa, e tiveram, eles e os seus homens, um papel importante na independência da Suécia. Guerreiros por natureza, estavam onde eram precisos e poucas visitas nos faziam, até porque, naquele tempo, as distâncias eram muito grandes e o perigo das viagens imenso. Apesar de todas as contingências, eu e o meu irmão mais novo, a quem chamavam zombateiramente “o poeta”, ainda os abraçamos algumas vezes durante a adolescência.

Um certo dia “o poeta”, meu companheiro de brincadeiras e loucuras juvenis, meu amigo e confidente dos primeiros amores e desamores, partiu com os “guerreiros” para uma luta mais real, onde os ideais eram feitos de disciplina e dores no corpo, que acompanhavam a dor e a saudade da alma. A poesia, ah, essa esbarrava no sangue vermelho e quente de irmãos, agarrava-se às espadas e tornava-se negro. E eu, linda menina egoísta, mimada e rica, senti-me triste e abandonada por todos eles.

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  1. #1 by Ivani Medina on 16 de Julho de 2012 - 11:56

    Uma bela voagem no tempo e nos sentimentos que permanecem os mesmos. Parabéns.

  2. #2 by José Sousa on 16 de Julho de 2012 - 12:36

    Olá, bom dia. Duas notas: a História fez-se, por todo o lado, muitas vezes a expensas das mulheres e deixando esse imenso esforço na obscuridade. Fiquei também impressionado com a exactidão histórica de tudo o que menciona. Um abraço e boa semana.

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