O Sorriso, ou a Loucura dos que Gritam em Silêncio

O Sorriso

Ela falava e sorria num pequeno grupo de raparigas e rapazes, que, sentados à sombra de um grande carvalho, aguardavam o toque da próxima aula. Inclinou-se e levantou a cabeça para responder a uma colega, que estava um pouco afastada. Então viu-o. Ele estava do lado de fora do gradeamento que vedava o jardim da escola, e olhava para ela. O seu coração parou, inchou de medo até não lhe caber no peito. Pensou que ia sufocar e deu consigo a desejar que a morte não doesse muito. Momentos depois a campainha tocou e a impressão de sufoco foi desaparecendo. Todos se levantaram e, entre protestos, palavrões e insinuações jocosas ao professor, lá foram para mais noventa minutos de aula.

O Sol já se tinha ido, mas a noite ainda não tinha chegado. Ela e o irmão, de nove anos, estavam na cozinha a preparar o jantar. A mãe chegou e deitou-se. Cansada do duro trabalho na fábrica, exausta da sobrevivência, costumava entregava-se a longas conversas e mexericos com as amigas, passava horas no café ou nalgum bar, e, quando estava em casa, via telenovelas ou dormia. Aos poucos foi deixando os filhos entregues a eles mesmos, tornou-se ausente e completamente indiferente aos seus problemas e limitações. As crianças faziam todo o trabalho que uma casa exige e, recentemente, tinham passado também a fazer as compras, pois a mãe considerou que a filha, de quinze anos, já estava suficientemente crescida para gerir a casa.

– Com mais um ano do que tu, já estava prenha de ti. – Costumava dizer. – Tiraste-me a juventude. – E a rapariga às vezes chorava sozinha a sua culpa, outras vezes revoltava-se sozinha e odiava a mãe.

A porta da rua abriu-se dando passagem a um homem pequeno e magro. Os seus olhos, cinzentos e frios, eram pequenos e redondos, dando-lhe ao rosto comprido um semblante cruel. Abriu a porta da cozinha. Ficou encostado à ombreira da porta a observar os filhos. Eles cumprimentaram o pai e continuaram as suas tarefas. O pai continuou a observá-los e dirigiu-se à rapariga.

– Hoje passei na tua escola.

– Ah…

– Não me viste?

– Não pai.

– Pareceu-me…

– Se te tivesse visto tinha-te falado.

– Pois… Não voltas a vestir nem as calças nem a camisola que vestiste hoje.

– Pai, mas são uns jeans normalíssimos…

– Têm a cintura descaída e não quero que pareças uma puta, como todas as outras, com a barriga à mostra.

– A minha irmã não é puta! – O grito saltou do rapazinho com uma ferocidade maior do que ele.

Em dois passos o homem chegou ao lado da criança, pegou-lhe no braço magro e encostou-o violentamente à bancada do lava loiça.

– Tu, tu, meu cabrãzinho, só falas quando alguém te perguntar alguma coisa. Ouviste? Eu não chamei puta à tua irmã, mas se eu quiser, chamo-lhe puta quantas vezes me apetecer. As mulheres são todas putas. Todas! Estamos entendidos?

– Tu tás sempre a chamar nomes à gente. E tu és bêbado e chulo, gostaste?

O homem olhou para a criança com ódio e começou a tirar o cinto das calças. A rapariga puxou o irmão e colocou-se à sua frente.

– Não lhe batas pai. Olha, a professora dele já andou por aí a perguntar coisas… porque é que ele anda sempre inchado e com nódoas negras… ainda vamos ter problemas… não lhe batas… desculpa-o, ele não volta a dizer, prometo…

– A professora que venha cá para o meu lado!… Leva também uma dose e ainda a fodo toda. Sai da frente, caralho! Sou eu que educo os meus filhos como achar melhor, não é uma badameca qualquer, nem uma putinha como tu, que me vão ensinar. Sai da frente ou vai tudo a eito. Estou a avisar!

E não avisou mais vez nenhuma. O cinto silvava no ar e deixava vergões vermelhos na sua pele, a cada grito de dor. A adolescente conseguiu acocorar-se a um canto, com o irmão todo encolhido à sua frente. O garoto soluçava e pedia desculpas à irmã de cada vez que ouvia o cinto cair no seu corpo.

– Desculpa mana… desculpa mana.

Ela queria gritar bem alto, para que a mãe e os vizinhos ouvissem, mas já só tinha forças para gemer. Ninguém lhe iria acudir. Desta vez morreria ali naquele canto. O cinto rugiu mais uma vez no ar, mas caiu na sua cabeça sem força, flácido, um simples bocado de cabedal que lhe afagou a nuca. Fez-se um silêncio aterrador, apenas cortado pelo barulho surdo de algo pesado a cair no chão. Por alguns segundos ela ficou naquela posição agarrada ao corpo franzino do irmão, que tremia convulsivamente. Depois virou o rosto a medo, e o seu olhar deparou-se com o corpo grande e bem torneado da mãe, que tinha na mão um cano de ferro. O pai estava enrolado aos seus pés, com a cabeça ensopada em sangue e os olhos cinzentos arregalados. Mortos e admirados. Uns olhos espantados com a petulância da sua puta.

De um momento para o outro a casa ficou cheia de gente. Ouviu sirenes na rua. Atrás dela uma voz calma pedia-lhe para largar o irmão e levantar-se. Outra pessoa tomou-lhe o pulso, depois, devagar, ajudou-a a levantar-se. Um polícia tentava acalmar o irmão e a mãe… a mãe continuava de pé a olhar para o pai morto. Sorria. Um sorriso largo, feliz.

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  1. #1 by Ebrael Shaddai on 23 de Julho de 2012 - 2:33

    Há alguns dias, soube de um “causo” em que o “homem” da casa (bela merda de homem!), que chegava no lar, bêbado, encharcado na aguardente, e batia sistematicamente todos os dias na esposa e nos filhos, morreu em circunstâncias parecidas.

    Chegou em casa, e enquanto espancava a socos a mulher, a xingava com toda a fúria de um misógino veterano, bem diante dos filhos, o mais velho com 16 anos de idade e o menor com 6 anos. Deixou a mulher inteiramente “quebrada” sobre a cama do quarto e, no delírio animalesco (diria báquico) do etilismo, pegou a cadela menor da família e a violentou em plena sala de estar, diante dos olhos enojados dos filhos.

    O rapaz de 16 anos, tomado de uma “ira santa”, farto de tantos ultrajes e violência diabólica, não resistiu ao impulso de ira, pegou no revólver do próprio pai e o acertou bem no peito. Sim, um tiro no coração, bem no órgão em que ele mesmo tinha sido atingido durante anos pelo pai e suplicava por alívio. Seu alívio logrou pela morte do coração do agressor!

    Belo texto! Abraços!

  2. #2 by Vampira Dea on 7 de Novembro de 2012 - 10:07

    Que texto! Muito bom! O triste é saber que não é de todo ficção , isso acontece pelo mundo e muito.

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